Antigamente pensava que, embora goste muito dele, tinha pouco em comum com meu pai. Não estava completamente errado, mas esta estória não é sobre isso.
Fomos lá no hospital Santa Maria, na minha cidade, pra render o turno da minha mãe, que está acompanhando meu tio na internação.
O hospital fica uns duzentos metros da casa dos meus pais. Mais duzentos metros e temos a casa do tio, e com mais duzetos é o cemitério. Tudo é perto na minha cidade, pouca necessidade de carro ou ônibus.
Só pra localizar melhor as coisas, esse tio não é um tio genérico, ele criou minha mãe como pai, logo é como se fosse meu avô. Todos chamamos ele de Nêgo (com ê mesmo). Ele tomava conta do pequeno eu de 5 anos (acho) enquanto minha mãe analisava amostras de sangue no laboratório. Mas meu tio também tinha seus compromissos de sacristão de uma paróquia, pra onde ele me levava. Lembro de ir pra uma extrema unção (ou era um velório?) onde fiquei cantando com o folhetinho virado de cabeça pra baixo.
Chegando na enfermaria do hospital mandamos minha mãe jantar. Eu tinha a intenção de entreter o doente, mas ele estava com a voz bem fraquinha pra conversar. Melhor uma estória. Então fiz a pergunta mágica ao meu pai sobre como vovô aprendeu a nadar tão bem vivendo num sítio no interior de Pernambuco.

Então, era uma vez meu bisavô, que não sei o nome, por causa de quem começa tudo. Tem essa estória vaga e difusa de que ele matou duas pessoas, em duas situações distintas, com tiros à queima roupa de seu perverso bacamarte. Me foi contado que ele socava vidro e pregos junto com a pólvora. Um dos tiros teria arrancado o coração de uma mulher e o outro a cabeça de um sujeito. Mas pode ter sido o oposto. A causa de tanta raiva pode ter sido fofoca e ciúme. Ele tinha uma amante e estavam contando pra minha bisavó. Meu bisavô, amante da paz que era tentou resolver do jeito dele. Contudo, nada é preciso nessa estória. Essas lendas de família são assim mesmo.
Fato é que nos idos de mil novecentos e dez e poucos os bandidos perigosos iam para… O que é que ele vai ganhar Lombardi? Uma viagem com tudo pago pra Fernando de Noronha, Silvio! E a estranheza só aumenta, meu pai contou que a família do condenado ia junto com ele, mas ficavam numa casa de verdade na ilha, e o meliante só precisava dormir na cela com provável vista pro mar. E essa era vida do meu bisavô, dormir no xilindró e fazer mais filhos durante o dia. Penso que ele só fazia pela diversão, mas cada filho nascido na ilha diminuia sua pena.
E foi assim que meu avô aprendeu a nadar, praticando dos 13 aos 18 em Fernando de Noronha, enquanto o pai cumpria pena por crimes hediondos.
Sabia desse conto só até essa parte, mas o mais legal de ouvir meu pai narrando tudo de novo é que sempre posso confiar na ampliação da estória com um detalhe que lembrou na hora. O detalhe dessa vez foi um tubarão.

Estavam pescando numa jangada lá no mar azul de Fernando de Noronha meu avô e seu irmão. Pescavam com anzol grande e corda resistente, esperando pegar algo graúdo. Pois foi um tubarão que veio, não sei a espécie, só sei que era do tipo com dentes afiados e do tamanho da jangada onde cabem duas pessoas.
Eles lutaram com o peixão por um bom tempo, até que o bicho virou o barquinho. Nessa parte da narrativa eu só acreditei que meu avô saiu vivo porque estavam o filho e o neto conversando sobre ele. Assisti muitos filmes de tubarão pra saber que o objetivo da espécie, em todas suas variantes, é o extermínio da raça humana. Veja o tubarão baleia por exemplo, aquele jeitão simpático dele, aquela boca de garagem de fusca, isso é só pra baixar nossa guarda.
Na vida real o tubarão com um gancho na boca só quer fugir. Vovô e seu irmão com suas inseparáveis facas (sim, os filhos do condenado andavam por aí com facas – eram aqueles tempos que todo mundo fala de amarrar cachorro com salsicha) só queriam um almoço de frutos do mar.
Bem, voltando, vovô conseguiu furar o tubarão e logo o bicho enfraquecia. Eles desviraram a jangada e jogaram o peixão no meio. Os pescadores adultos festejaram a habilidade e ousadia dos meus antepassados adolescentes e todos fizeram um feliz churrasco de tubarão.
Essas horas minha mãe já voltou e tenho um ônibus pra pegar.